Profetas do Novo Testamento
Comentário – Sábado e Domingo
Introdução e Jesus como Profeta (Mt 16:13-16; Jo 1:1-5)
Verso para memorizar: “Ora, os dons são diversos, mas o Espírito é o mesmo. E também há diversidade nos serviços, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade nas realizações, mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos” (1Co 12:4-6).
A tradução esconde uma repetição. “Diversos”, “diversidade” e “diversidade” são a mesma palavra grega, diairesis, que dá a ideia de repartir, distribuir. Paulo usa a palavra três vezes, e a cada vez quem distribui é uma pessoa diferente: o Espírito, o Senhor e Deus. Os dons mudam de mão em mão, mas quem reparte é o mesmo. A lição abre a semana com um pai mostrando ao filho que o motor do primeiro carro era igual ao do carro novo. Paulo já tinha feito essa comparação, à maneira dele, dezenove séculos antes.
Por que Jesus fez a pergunta justamente em Cesareia de Filipe?
Mateus diz que a conversa aconteceu “na região de Cesareia de Filipe” (Mt 16:13). O Comentário Bíblico Adventista conta que o nome antigo da cidade era Pâneas, por causa de Pã, o deus grego dos rebanhos e dos pastores. Havia uma gruta dedicada a ele num paredão de rocha, e dali brotava uma das nascentes do Jordão. Filipe, filho de Herodes, reconstruiu a cidade e a rebatizou em homenagem a si mesmo e ao imperador Tibério. O comentário acrescenta que Jesus se retirou para aquela região de gentios em parte para fugir dos espiões que não Lhe davam sossego na Galileia, e em parte para preparar os discípulos para a crise que vinha.
Então, diante de uma rocha cheia de nichos para deuses, numa cidade batizada com o nome de dois homens poderosos, Jesus pergunta quem Ele é. O povo dizia que era João Batista, Elias, Jeremias ou “algum dos profetas” (v. 14). Era uma resposta respeitosa e pequena demais. Moisés tinha prometido “um profeta semelhante a mim” (Dt 18:15), e Pedro diria depois, em Atos 3:22, que a promessa se cumpriu em Jesus. Mas a lição leva a gente a João 1. O Verbo que se fez carne é o mesmo que fez todas as coisas. Cada “E disse Deus” de Gênesis 1 saiu da boca Dele.
Uma correção. A lição diz que o Universo “hoje se estima ter cerca de 93 bilhões de anos-luz de extensão”. Esse número é o diâmetro do Universo observável, a parte que a luz teve tempo de nos mostrar. O tamanho do todo ninguém conhece. A correção deixa o argumento da lição ainda mais forte. O Autor de um Universo que a gente nem consegue medir morreu numa cruz romana, do lado de fora de Jerusalém.
Pergunta provocativa para hoje
Se perguntassem aos seus vizinhos quem Jesus é para você, a resposta deles seria mais parecida com a do povo ou com a de Pedro?
Frase do dia:
Em Cesareia, o povo achava que Jesus era um profeta entre outros. Era o Verbo que tinha dito “Haja luz”.
Comentário – Segunda-feira
Apóstolos e profetas (Ef 2:20; 3:5; 2Pe 3:1, 2)
No grego clássico, apóstolos era uma palavra sem brilho nenhum. Servia para falar de uma expedição naval, de uma frota despachada. A Baker Encyclopedia of the Bible chama atenção para uma cena de 1 Reis 14. A esposa do rei Jeroboão vai disfarçada consultar o profeta Aías, que já estava cego. Ele ouve os passos dela na porta e diz que foi enviado a ela com notícias duras (1Rs 14:6). Os tradutores da Septuaginta, a versão grega do Antigo Testamento, usaram ali a palavra apóstolos. O primeiro “apóstolo” da Bíblia grega foi um profeta com um recado difícil.
Os dois ofícios andam juntos desde então. Paulo diz que a igreja foi “edificada sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo o próprio Cristo Jesus a pedra angular” (Ef 2:20). O Comentário Bíblico Adventista registra as duas leituras. Para alguns, esses profetas são os do Novo Testamento (Ef 3:5; 4:11). Para outros, são os do Antigo, que prepararam o caminho do Messias. O Auxiliar da lição, citando o gramático Daniel Wallace, fica com a primeira leitura. O Handbook of Seventh-day Adventist Theology observa que no grego os dois grupos estão sob um mesmo artigo, como se fossem uma categoria só. E logo lembra que houve profetas que não eram apóstolos: Ágabo, Judas, Silas e as filhas de Filipe.
Sobre quem a igreja foi edificada, afinal?
O Comentário Bíblico Adventista faz uma observação que liga esta segunda ao domingo. O texto de Efésios não diz que a igreja foi fundada sobre um apóstolo, Pedro, e sim sobre todos eles, com Cristo como pedra angular. A palavra é akrogōniaios, que só aparece aqui e em 1 Pedro 2:6. Na construção antiga, era a pedra do canto, que segurava o edifício e dava forma e unidade às paredes. O detalhe que eu acho bonito é que quem usa a outra ocorrência da palavra é o próprio Pedro. O homem que ouviu “sobre esta pedra” em Cesareia escreve anos depois que a pedra é Jesus.
O comentário também lembra que a imagem muda de uma carta para outra. Em 1 Coríntios 3:11, Cristo é o fundamento. Em Efésios, Ele é a pedra que alinha tudo e os apóstolos e profetas são o alicerce. Paulo não se contradiz. Ele muda de ângulo para olhar a mesma casa. E Pedro, em 2 Pedro 3:2, coloca “os santos profetas” e “os apóstolos” no mesmo nível de autoridade. O que eles escreveram sobre Jesus é o único registro inspirado que temos. O alicerce já foi posto.
Pergunta provocativa
Quando aparece uma “luz nova” que contraria o que apóstolos e profetas escreveram sobre Jesus, você mede a novidade pelo alicerce ou o alicerce pela novidade?
Frase do dia:
Pedro ouviu “sobre esta pedra” em Cesareia. Anos depois, escreveu que a pedra angular é Jesus.
Comentário – Terça-feira
Funções dos profetas do Novo Testamento (1Co 14:3; Ef 4:11-13; Ap 22:6)
Paulo resume o trabalho de quem profetiza em três palavras: “edificando, exortando e consolando” (1Co 14:3). O Comentário Bíblico Adventista explica que edificar é, ao pé da letra, “construir”, e que a mensagem do profeta vai levantando a experiência do cristão por etapas, como se sobe uma parede. Sobre a segunda palavra, paráklēsis, o comentário lembra que ela é parente de paráklētos, o nome que Jesus dá ao Espírito Santo em João 14:16. Quem profetiza faz em pequena escala o que o Consolador faz na igreja inteira.
A terceira palavra, paramythía, o comentário trata como quase sinônima da segunda. O léxico de Ceslas Spicq mostra um pouco mais. Ela vem de um verbo que quer dizer conversar, contar, com o prefixo “ao lado”. Nos papiros e inscrições da época, aparece em textos de gente que fazia uma viagem só para consolar alguém que passava por dificuldade. Era a palavra de quem senta ao lado e fala baixo.
O que Judas e Silas fizeram em Antioquia?
Atos 15 conta. O concílio de Jerusalém tinha decidido que os gentios não precisavam se circuncidar para ser salvos. Mandaram uma carta a Antioquia, e com a carta foram dois homens, Judas e Silas (At 15:22-27). A igreja leu a carta e “alegrou-se pela consolação” (v. 31). A palavra é paráklēsis. Logo em seguida, Lucas diz que Judas e Silas, “que eram também profetas, consolaram os irmãos com muitas palavras e os fortaleceram” (v. 32). Foi a mesma palavra duas vezes, primeiro na carta e depois na boca dos dois.
Nenhum deles escreveu livro da Bíblia. Levaram uma decisão da igreja e ficaram explicando, animando e firmando os irmãos. Foi esse o trabalho profético daquela semana. Já estive em velório em que a coisa mais útil que alguém fez foi dizer uma frase só, perto, na hora certa. Paulo põe esse tipo de coisa dentro do dom de profecia.
E Apocalipse 22:6 diz quem está por trás disso: “o Senhor, o Deus dos espíritos dos profetas”. As palavras são “fiéis e verdadeiras” porque a Fonte é.
Pergunta provocativa
Na última vez que alguém da sua igreja perdeu uma pessoa querida, você foi até lá sentar ao lado ou mandou um áudio?
Frase do dia:
Em Antioquia, a carta trouxe consolação e os profetas também. Às vezes o dom de profecia é sentar ao lado e firmar quem está balançando.
Comentário – Quarta-feira
Profetisas e jovens pastores (Lc 2:36-38; At 21:9; 1Tm 1:18; Tt 2:15)
O Comentário Bíblico Adventista lembra que Ana tinha o mesmo nome da mãe de Samuel, Hannah, ligado à ideia de graça. Era filha de Fanuel, nome parente de Peniel, “face de Deus” (Gn 32:30), e era da tribo de Aser, que quer dizer “feliz”. Aser foi uma das tribos do norte espalhadas pela Assíria. O comentário desmonta uma lenda antiga: segundo evangelhos apócrifos e uma tradição que a igreja adotou depois, Maria teria sido criada no templo sob os cuidados de Ana. “Pura ficção”, diz o comentário. Não há nada que indique que as duas já se conheciam. E a idade? O grego permite ler que ela tinha 84 anos ou que estava viúva havia 84 anos. Os comentaristas estão divididos pela metade. Se for a segunda leitura, ela passava dos cem. Seja como for, Lucas dá a ela uma frase que vale um ministério inteiro: “falava a respeito do menino a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém” (Lc 2:38).
O que aconteceu naquela casa em Cesareia?
Atos 21 conta uma cena que a gente costuma ler rápido. Paulo vai para Jerusalém e se hospeda em Cesareia, na casa de Filipe, o evangelista. Filipe tinha “quatro filhas solteiras, que profetizavam” (v. 9). Num desses dias chega Ágabo, que o comentário identifica com o mesmo profeta que tinha previsto a fome em Atos 11:28. Ele pega o cinto de Paulo, amarra os próprios pés e mãos e diz que assim os judeus fariam com o dono daquele cinto (v. 11). A casa estava cheia de gente com o dom profético. Todos imploraram que Paulo não fosse. Paulo foi assim mesmo, e os irmãos se calaram, dizendo: “Faça-se a vontade do Senhor” (v. 14). A profecia avisou do perigo. Não proibiu Paulo de ir.
E as filhas? Eusébio, na História Eclesiástica, cita fontes do século 2. Polícrates, bispo de Éfeso, diz que duas delas estavam sepultadas em Hierápolis, na Ásia Menor, e uma terceira em Éfeso. Ele confunde Filipe, o evangelista, com Filipe, o apóstolo. Proclo afirma que o túmulo das quatro estava em Hierápolis, ao lado do túmulo do pai (3.31). E Papias, bispo daquela cidade, contou que ouviu delas a história de um morto ressuscitado no tempo delas (3.39.9). Nenhuma palavra das quatro entrou na Bíblia. Foram profetisas verdadeiras e não canônicas. Para nós, adventistas, isso pesa. O dom de profecia nunca dependeu de escrever Escritura.
A lição fecha o dia com dois jovens. Paulo lembra a Timóteo “as profecias que anteriormente foram feitas a seu respeito” (1Tm 1:18). O ministério dele começou com palavras proféticas ditas na hora em que os presbíteros lhe impuseram as mãos (1Tm 4:14). A Tito ele entregou Creta, uma igreja difícil, com a ordem: “Que ninguém despreze você” (Tt 2:15).
Pergunta provocativa
Quem na sua igreja você acha novo demais, velho demais ou sem cargo demais para ser usado por Deus?
Frase do dia:
Numa casa em Cesareia, quatro moças profetizavam e ninguém guardou uma frase delas. Deus usou essas moças sem precisar transformá-las em livro da Bíblia.
Comentário – Quinta-feira
Falsos profetas no Novo Testamento (Mt 24:23, 24; Mt 7:15-20; Ef 6:10-18)
Jesus disse que viriam falsos profetas “operando grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, os próprios eleitos” (Mt 24:24). O Comentário Bíblico Adventista chama atenção para o “se possível”. Os sinais seriam quase convincentes para os eleitos, e não totalmente. Pela forma da frase no grego, diz o comentário, Satanás não consegue enganar quem ama e serve a Deus com sinceridade. Esses são os que aceitaram o colírio que a Testemunha Fiel oferece a Laodiceia (Ap 3:18), e por isso enxergam a diferença.
Em Mateus 7:15, o lobo aparece “disfarçado de ovelha”. O comentário observa que a mudança era só por fora. O coração continuava o mesmo, e a roupa servia para fazer a ovelha relaxar. O adjetivo que Jesus usa para os lobos é harpax, “rapace”, e o comentário traduz a ideia: gente gananciosa por dinheiro e por poder.
Como a igreja do primeiro século reconhecia um lobo?
Havia um manual para isso. A Didaquê, um manual cristão do fim do século 1, dedica um capítulo aos profetas que andavam de igreja em igreja (cap. 11). As regras eram práticas. O profeta podia ficar um ou dois dias. Se ficasse três vivendo da hospitalidade da comunidade, era falso profeta (11:5). O Theological Dictionary of the New Testament cita essa regra. Se pedisse dinheiro, era falso (11:6). Se ensinasse a verdade e não vivesse o que ensinava, também era falso (11:10). Ulrich Luz, no comentário a Mateus 7, diz que o critério de Mateus é a prática, e que a Didaquê nasceu bem perto do ambiente desse evangelho.
Eu acho isso de uma simplicidade que desarma. Antes de discutir doutrina, os primeiros cristãos olhavam o bolso e o comportamento do pregador.
A proteção que Paulo indica é “toda a armadura de Deus” (Ef 6:11). O Comentário Bíblico Adventista diz que a ordem das peças é provavelmente a ordem em que um soldado romano se vestia. Primeiro vinha o cinto, que prendia a roupa para ela não atrapalhar os movimentos. O cinto é a verdade, e o comentário observa que no grego a palavra vem sem artigo. É a verdade de Deus guardada no coração, assumida e posta em prática. A couraça da justiça vem de Isaías 59:17, onde quem a veste é o próprio Deus. E repare: na quarta-feira vimos Ágabo pegar o cinto de Paulo para anunciar as correntes dele. Na carta, Paulo começa a armadura pelo cinto.
Pergunta provocativa
Qual foi o último vídeo “profético” que você compartilhou sem olhar os frutos de quem fez?
Frase do dia:
A Didaquê mandava desconfiar do profeta que pedia dinheiro. Milagre não prova nada, e a vida de quem prega diz muito.
Comentário – Sexta-feira
Estudo adicional: Os incomparáveis encantos de Cristo
A semana começou em Cesareia de Filipe, diante de uma rocha cheia de deuses, com Jesus perguntando quem Ele era (Sábado e Domingo). Vimos que o primeiro “apóstolo” da Bíblia grega foi um profeta cego com um recado duro, e que Pedro chamou Jesus de pedra angular (Segunda). Vimos Judas e Silas consolando Antioquia (Terça), quatro moças profetizando numa casa em outra Cesareia (Quarta) e um manual do primeiro século ensinando a reconhecer lobos (Quinta).
A lição fecha com Ellen White, e o critério é o mesmo da semana inteira. A série O Conflito dos Séculos começa e termina com as palavras “Deus é amor”. Escrevendo O Desejado de Todas as Nações, ela anotou: “Esqueço de respirar como devia. Não consigo suportar a intensidade de sentimento que se apodera de mim quando penso no que Cristo sofreu em nosso mundo” (Mensagens Escolhidas, v. 3, p. 99). Ela via os próprios escritos como uma luz menor que leva à maior: “O Senhor deseja que estudem a Bíblia. Ele não deu alguma luz adicional para tomar o lugar de Sua Palavra” (Mensagens Escolhidas, v. 3, p. 24). E escreveu que quem fala em nome de Cristo deve “ensinar o que Cristo havia ensinado”, e que “o ensino humano fica de fora” (O Desejado de Todas as Nações, p. 664).
O Auxiliar da lição conta uma cena de 1888. Depois da assembleia de Mineápolis, perguntaram a Ellen White o que ela achava das mensagens sobre justificação pela fé que tinham sido apresentadas ali. Ela respondeu que vinha apresentando aquilo havia 45 anos: “os incomparáveis encantos de Cristo” (Sermons and Talks, v. 1, p. 116).
O que Ana, as filhas de Filipe e Ellen White têm em comum?
Ana falava do menino a todos os que esperavam. As filhas de Filipe passaram adiante histórias que Papias ouviu e guardou. Ellen White passou setenta anos escrevendo, e ela mesma disse que o assunto era um só desde o começo. O profeta verdadeiro, em qualquer século, faz o que Jesus fez em Cesareia: vira o rosto das pessoas para Ele e espera a resposta. E deixa a Bíblia aberta na mão delas.
O motor é o mesmo do Gênesis ao Apocalipse.
Pergunta provocativa para a semana
Os livros de Ellen White que você lê levam você de volta à Bíblia ou acabam ocupando o lugar dela?
Frase do dia:
Depois de Mineápolis, Ellen White disse que havia 45 anos falava da mesma coisa: os incomparáveis encantos de Cristo. Profeta verdadeiro sempre volta para Jesus.

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